Exú Caveira

− Boa noite a todos. Como muitos aqui esperavam, não vim contar minha vivência física, vim lhes contar o quanto um espírito continua morto mesmo após ter alcançado o êxito. 

“Sou como vocês chamam, Exu, a muito tempo. Conquistei muitos méritos e há alguns anos comecei a trabalhar nos terreiros e em outros campos, enfim, anteriormente minha derrota ocorreu devido a mim mesmo, vi meu orgulho e vaidade aumentarem e meu ego se tornava cada vez maior. Eu era líder de uma grande falange e fazia grandes méritos quando incorporado. Yaos e médiuns faziam tudo o que eu pedia, eu adorava exigir oferendas das mais simples as mais grandiosas. Sim, eu era cada vez mais convencido, respeitado e principalmente temido e assim comecei a brincar com a Lei Maior: não havia nada que eu não fizesse, nada que eu não resolvesse. Assim, com muito ego e vaidade, fui perdendo os meus, minha falange outrora gigantesca agora se resumia a poucos, mas mesmo assim eu continuava me achando digno de ser chamado de Rei. Muitos médiuns com quem trabalhei caíram, também por sua vaidade e seus próprios caminhos, em pouco menos de quarenta anos trabalhando em terreiros."

“Eu havia me resumido a quase nada, o Babalorixá a quem me apeguei retornou a pátria espiritual após dor, doença e sofrimento. Ainda fiquei guardando aquele espaço antes sagrado, hoje profano... Por vários caminhos continuei perdido em minha própria escuridão, até que fui encontrado pela falange de Sr. Exu Arranca Toco e levado a uma casa simples de Umbanda. Como os vermes que muitas vezes resgatei, fiquei ali acorrentado com tantos outros como eu, e eu, outrora Rei, agora não mais passava de um escravo. Hoje só posso agradecer por esse momento da minha existência, pois logo fui encarregado de alguns trabalhos, pedidos por aquele zelador que não incorporava, mas sabia exatamente como falar como alguém como eu. A casa se fechou por obras do destino e ficamos, eu e muitos outros, novamente presos àquele espaço. Até que fomos enfim encontrados, muitos escolheram continuar no caminho, eu tive medo de continuar ali e me tornar o que já tinha sido um dia."

“Agora vocês me perguntam: como foi que eu parei aqui? Bom, um dos meus superiores me acolheu em sua força e trabalhei muito em sua falange. Hoje tenho a complexidade de incorporar − raríssimas vezes, porque o médium que me foi “emprestado” não tem suporte físico para que eu venha mais vezes, e tudo na vida tem um porquê. "

“Hoje trabalho na casa de vocês e fico um momento feliz de poder fazer isso, luto contra minha vaidade e meu egoísmo, luto e procuro ajudar aqueles que prejudiquei quando não respeitava a Lei. Hoje me chamo Exu Caveira, um dia quem sabe posso usar meu Tata e mereça esse título. "

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