Exú Sete Catacumbas

− Até que enfim chegou minha vez! Vou contar: eu estava ansioso por este dia, já que há muito tempo me preparo para isso. Vocês pensam que é apenas se aproximar do médium e sair mexendo os dedos ou pegar na caneta, quem dera fosse assim porque aí vocês teriam muito mais notícias daqui do que tens. Um trabalho assim envolve muito trabalho de ambos os lados. Em nosso lado há a preparação, já que a vida daqui para vocês é uma fantasia, ou um conto de fadas como vocês costumam chamar, e isso é uma ilusão. 

“Fiquem sabendo que aqui é sim maravilhoso de se viver, mas o maravilhoso não é apenas um jardim florido, campos com lírios e pessoas maravilhosas de branco andando de um lado para o outro, assim como vocês vem. O maravilhoso do lado de cá também tem muita lama, muita dor... O sofrimento até mesmo daqueles que não se encontram no fundo do poço (já que aqui não posso falar na merda) é visto como maravilhoso, isso porque aqui para nós que trabalhamos em prol da causa Dele tudo tem um porquê e se Ele concedeu seja lá qual for a lição ou obrigação a nós nos sentimos maravilhados. E não pensem vocês que não sentimos medo, tristezas e arrependimentos, lógico que sentimos! E isso também é maravilhoso. Pensem bem, imaginem eu entrando em certos lugares e sendo tratado como o demônio, ou como alguém que vive na escuridão e mesmo assim tendo que trabalhar porque este é meu dever, ou vocês acham que trabalho apenas na Casa de vocês? Mas em lugares assim eu trabalho com o meu coração cheio de tristeza e quando o médium deixa tento colocar no mental dele que eu sou luz e não é porque trabalho na escuridão que sou a escuridão. Pelo contrário, Exu é a luz que ao lado dos negos velhos desbravam a escuridão e levam a luz Dele para aqueles que acham ou que realmente estão perdidos. “

“Por que tantos de nós se perdem? Porque os olhos humanos não aguentariam uma ampla visão dos mundos inferiores e de seus sofrimentos, sim eu acabo concordando com vocês em partes: realmente é o inferno. E por isso peço a Ele todos os dias que tenha piedade de almas como as que vivem na Terra: perdidas no egoísmo, na fofoca, na falta de vontade; e ainda assim se acham os merecedores de graças que não lutaram para obter. Venho acompanhado por anos a fio os umbrais se enchendo de religiosos de todas as denominações religiosas por se acharem os escolhidos, os trabalhadores da ultima hora, os católicos se acham o dono do Cristo, os evangélicos os donos da verdade, os espíritas os escolhidos, os umbandistas os injustiçados e por aí vai. Mas fazer o que se deve ser feito haaaaa isso poucos fazem e acabam se perdendo de suas missões! Vou contar um segredo a vocês: a lei está aí para todos, porque até o filho do Homem, como vocês conhecem, teve que cumprir a sua, mas ele não é exemplo para vocês, já que comparando vocês mais parecem beatos religiosos parasitas do que alunos que precisam aprender com o mestre. ”

“Eu já estou aqui há algum tempo e por muito tive que passar, não sou melhor que nenhum de vocês, pelo contrário. Fiz coisas por ser ignorante que hoje com um pouco de conhecimento não faria mais. Afinal é para isso que serve o conhecimento, não é para te deixar mais iluminado, pois conhecimento não ilumina ninguém, mas o que você faz com ele sim. Não é para você bater no peito e falar que sabe mais que o outro, mas para que você perceba sua melhora e trabalhe-a com sabedoria. Mas como eu ia dizendo: quando andei no corpo físico muito aprendi, a oportunidade da carne é algo maravilhoso que se deve dar muito valor, mas irei contar pouco, pois, como alguns sabem, ainda irei escrever muito! (risada alta) − Sim, eu estou rindo de alegria pela oportunidade, não posso? ”

“Fui um sacerdote egípcio adorador do Deus da morte, Anúbis, e na cidade de Tebas vivi grande parte da minha vida. Meu trabalho, entre tantos, era o de aconselhar as pessoas, eu era procurado tanto por grandes homens como por pessoas humildes e a vaidade tomava conta de mim. Lógico que aqueles com mais poder eram tratados por mim com uma atenção maior e o poder me tornou um homem frio e cheio de luxo e luxurias. Muito influenciei pessoas de poder para que assim tirasse vantagens, sim, eu não tinha respeito pela vida já que amava a morte. Meu maior prazer era o tempo que passava na necrópole cuidando dos mortos, quando comecei a ser pago por isso, o verdadeiro respeito sumiu e os Deuses me castigaram, fui agraciado com a lepra, mas não fui banido da minha comunidade ao invés disso passei a viver nas tumbas e apenas cuidava de cadáveres daqueles excluídos pela sociedade. Aqueles que antes eu manipulava me abandonaram, por anos eu pedi a morte, mas esta não vinha e meu castigo ficava cada vez pior, pois o corpo, que é sagrado por se morada da alma, se tornou uma prisão dolorosa. “

“Quando voltei para a espiritualidade estava completamente deformado, eu já não tinha uma identidade e de tanto orgulho me afoguei no mar da escuridão. Foi assim que quase perdi a forma humana, mas pelas mãos benditas das Mensageiras de Maria fui socorrido e levado a uma cidade espiritual. Sim, fui socorrido por mulheres e falo isso hoje com orgulho e amor, já que nessa vida que lhes apresento elas pouco tiveram valor para mim. Se estão se perguntando se desde de lá sou o Exu Sete Catacumbas, não filhos... Pois ainda tive que passar por três provas para poder carregar este mistério e essa honra que serão contadas ao longo desse trabalho. “

“Hoje trabalho no reino de Pai Omolu, sob a orientação dos falangeiros de Oxalá, pois quem sou eu para chegar perto do sagrado? Aqui sou Exu, ali sou irmão, em alguns lugares me chamam de mestre, já fui chamado de indiano, constantemente sou chamado de demônio e por outros de anjo, mas o que me define não são os nomes que me deram e sim o amor de alguns que nunca se esqueceram que caminharam do meu lado e que foram sustentados pela permissão divina, pelo mistério desse espírito que apenas quer ser reconhecido como filho do Pai e que não se arrepende do aprendizado que teve que passar para chegar aqui. Do meu hospital emano luz e axé, pois Catacumbas que antes adorava a morte hoje vive no meio dos vivos... “

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