Erê Julinho

− Ô tio, me dá mel? Porque mel é o que eu mais gosto nessa terra, é uma delícia! Pois o mel representa tanta coisa linda, tio, desde os trabalhos das abelhas para fazer até vim parar dentro da minha barriga ele passa por tantas transformações! Assim sou eu, você e todos, tio! Passamos por tantas transformações e vamos continuar passando, já que esse é o nosso destino. Hoje meu nome é Julinho, tem dia que me chamo Dr. Júlio... e as pessoas ficam se perguntando “como uma criança pode fazer remédios?”, mas elas esquecem, né tio? Que antes de ser um Erê que trabalha na cura, na alegria, na transformação, eu sou um espírito e não é porque me apresento como criança que não posso trabalhar.

“Erê, tio, não é criança que brinca o tempo todo e fica fazendo brincadeira pra vocês se divertirem, somos mensageiros dos Orixás, trazemos a cura nas mãos. Eu estudo muito, todos os dias vou para a escola de Pai Joaquim e lá tenho professores. Vovó Cambina, João Guiné, o Caboclo Cobra Coral e até o capetão Catacumbas dão aula lá. Então não pensem vocês que passo meus dias sentado comendo mel, pois não é assim tio! "

“Eu não morri, tio. Prefiro pensar assim, porque quando lembro fico muito triste. Isso porque quando vim pra cá, minha mamãe sofreu tanto, tio, que perdeu a fé no Papai do céu e se perdeu de mim. Aí quando ela chegou aqui, não me reconhecia, tio, e eu fiquei visitando ela muito e muito no hospital. Até que um dia ela voltou pra Terra e eu tive que ficar aqui, pois cada um tem, tio, uma missão e a minha era ajudar as pessoas. Vocês ficam pensando “nossa, o Julinho é evoluído”, mas isso não tem nada a ver, tio, com evolução, isso é trabalho. "

“Quando eu morava aí, gostava de tomar banho na cachoeira e correr descalço atrás de cavalo, eu morava em um lugar lindo! Minha casa ficava no alto do morro, tio, e as pessoas iam lá para eu passar as mãos nelas, tio, porque elas falavam que eu curava. Não era eu, tio, era Jesuis que ajudava. Mas homes ruins, tio, me queriam pra eles e como meu papai e minha mamãe não deixaram, eles colocaram fogo na nossa casa e aí viemos todos para cá e ficamos aqui por muito tempo. "

“Aí, tio, um dia eu voltei e nessa época já existia no mundo de vocês muitas coisas legais; eu caminhava e corria por ruas de paralelepípedos e morava com a minha mamãe em uma casa simples, a única coisa que tínhamos em abundancia era amor. Eu amava os aviões, tio, eles rasgavam o céu como um foguete e eu queria voar como eles! Mas o homem transforma as coisas boas em ruins, e um dia minha escola foi atingida por uma coisa que faz BUM! e eu voltei pra cá junto com um monte de crianças. Fui levado para onde estou hoje e fiquei separado daqueles que amo, mas o Vô Joaquim teve muita paciência e me explicou tudo que ia acontecer. "

“E aí, tio, depois de estudar muito eu comecei a trabalhar como um Erê, ou como alguns chamam, um Cosme. E mesmo vocês achando que sou apenas uma criança, eu ajudo mamães e papais com dores no corpo e no coração. Por isso eu pedi uma casa para Oxalá, não foi para comer caruru, foi para ajudar aqueles que sofrem e que parecem perdidos igual minha mamãe ficou, e para agradecer ao Pai Oxalá que nos abrigou em sua cidade quando só a dor morava no meu coração. E hoje eu agradeço porque posso ver meu papai e minha mamãe sempre que vou comer mel e juntos continuamos ajudando, e nenhum homem mal vai poder nos separar, pois somos guerreiros de Oxalá e protegidos por Ogum. Eu sou muito feliz agora, tio, e em uma vida tão cheia de alegrias não teve espaço para a morte, tio, porque mesmo quando tudo parecia escuridão Deus e Jesuis não me deixaram sozinho. Onde tem amor só pode ter vida e a vida de todos nós, tio, é para sempre e vai muito além do que nós imaginamos... ” 

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